sexta-feira, 30 de março de 2012

Bodum




Coisas que deveriam significar outras coisas existem de monte na língua portuguesa. Veja só o caso de “bodum”. Palavra curta, sonora, quase tão gostosa de pronunciar quanto “bumbum”. Fui apresentado a esse verbete na segunda-feira passada, enquanto o professor de Redação falava de etimologia. Ele deu uma palavrinha esquisita para cada aluno e pediu o significado. O bodum caiu para mim. Na falta do bom e velho Aurélio, recorri ao sabe-tudo Google. Descobri o que quer dizer, mas não gostei. É um significado previsível e feiozinho. Acho que bodum merecia ser outra coisa.
Bodum poderia ser um jeito antigo e bonito de dizer que alguém peidou. Pense em algumas senhoritas do século passado reunidas tomando chá. Eis que um fedor invade os narizes branquinhos e arrebitados, e uma das moças comenta, muito educadamente: “Sinto que há um bodum pelo ar, ou seria só impressão minha?”. Se fosse assim, até hoje as meninas falariam bodum entre elas. Soltar um “peidei!” seria para os meninos, esses pequenos ogros sem modos.
Minha avó também não concordaria com o Google. Bodum, para ela, muito bem poderia ser uma dessas doenças da molecada. Na verdade, bodum mesmo seria o nome do bicho que causa a doença. “Tá vendo essas bolinhas vermelhas na pele? Essas que coçam um monte? Isso não é picada de mosquito. É mordida de bodum!”. E logo surgiria uma tia dando receita caseira para curar a comichão.
Mas se você quer saber, a palavra bodum vem de bode. E, advinha, não é coisa boa: bodum é “transpiração semelhante ao fedor de bode não castrado”. Já dava para suspeitar que era de bode e que era fedor, mas pegou a parte curiosa ali? O bodum só é verdadeiro se o animal não for castrado. Nesse caso, sou levado a acreditar que o bode capado é no mínimo cheirosinho. Uma pena para as fêmeas: se o bodão é perfumado, ele não liga pra elas.
Com essa pesquisa toda descobri ainda que “bodum” é primo de “almíscar”. Não é um só um primo pobre, mas um primo fedido também. É que o almíscar é um perfume muitíssimo poderoso e de origem bizarra: ele vem de uma certa glândula abdominal do cervo almiscarado. Matam o bicho, tiram a glândula e põe para secar ao sol. Segundo a Wikipedia, a essência não só tem o aroma mais penetrante como também o mais persistente que qualquer outra substância conhecida. Achei exagerado, mas vou fingir que acredito. Para fazerem essa barbaridade de matar o cervo, então é porque a coisa deve ser boa mesmo.
Mais uma curiosidade: o termo almíscar vem do vocábulo sânscrito muská, que significa testículo. Ao pé da letra, isso que quer dizer quem sai por aí usando aquele perfumão importado com notas de musk está mesmo é curtindo um cheirinho de saco escrotal.
De qualquer modo, agora você já está prevenido: se sentir um bodum no ar, corra para borrifar seu perfume de almíscar. 

Felippe Degaut

terça-feira, 27 de março de 2012

Hermeticamente Fechado


Uma das poucas verdades sobre qualquer língua, é sobre sua origem,  dizem os linguistas, que afirmam que a palavra é viva, e que se altera com o tempo.           
            Se a única verdade é a sua origem, então é de conhecimento geral, que a língua portuguesa, sendo a última flor do Lácio, é de origem latina e por consequência, grega também.
            Por isso há algumas palavras que se originam na tão fascinante mitologia grega, temos a história de Cronos, um titã, pai dos três principais deuses gregos e de tantos outros, que após nascer da união entre o céu e a terra (Urano e Gaia) representa o surgimento do tempo e por isso hoje temos palavras como cronograma, cronometro e cronologia, que são instrumentos que ajudam o homem a entender e organizar o tempo.
            Ou até mesmo a história do inocente Anfitrião, que recebeu um forasteiro em sua casa, que aguardou Anfitrião cair no sono, para se deitar com a esposa do pobre homem que ao final revela ser Zeus, o Rei dos deuses,  deixando assim, a jovem esposa grávida, do que no futuro se tornaria um dos maiores heróis da mitologia grega, Hércules. Sendo assim, o nome anfitrião  passa a nomear a todos que recebem as pessoas em sua casa.
            Agora, nenhuma outra palavra, deixa origem tão duvidosa quanto hermeneuta, parece o nome dado aos seguidores do deus Hermes, ou ainda o nome dado a fábrica que faz o fechamento hermético. Talvez as pessoas diriam por ai:
 - Consegui um trabalho lá na hermeneuta!
As donas de casa pediriam aos filhos:
 - Passa lá na hermeneuta e me traz as tampas herméticas.
            Talvez, o deus Hermes, adorasse conservar alimentos, ou detestava quando eles se estragavam. Por isso em sua homenagem deram seu nome para uma palavra que nada parece, e que parece tudo.
            Quem sabe, na antiga grécia, os gregos já diziam por lá:
 - Para fechar bem sua toga, passa lá na hermeneuta, ela vai vai fazer um fechamento hermético perfeito para você.
            E uma palavra que dá tanto a pensar, é uma palavra de quem pensa, uma arte de interpretar livros sagrados e textos antigos, porque se atribui a Hermes, na mitologia, a criação da escrita. Possívelmente, durante a "criação" desta palavra pensaram:
 - Aposto que essa escritura nem mesmo Hermes conhecia!
 Talvez, se uma dona de casa estivesse por perto gritaria:
 - Você não conhece tampa hermética?
Pode ser que esse texto, seja tão confuso que nem mesmo um hermeneuta conseguirá interpretar, na dúvida vou fechá-lo herméticamente para não estragar.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ignomínia


Quando criança, no início da alfabetização, a principal pergunta que fazemos aos pais é “o que é?” “O que é tempo? O que é morte? O que é? O que é?”. Às vezes, meus pais brincavam, querendo incentivar, devolvendo a pergunta: “o que você acha que é?”.
            Por isso vamos a brincadeira de criança: o que você acha que é ignomínia? Não sei se pelo começo parecido, mas ignomínia me lembra de certa forma ignorante, talvez possa ser usado na frase “esse cara é um ignômio”. Ignomínia pode ser também algo que venha dos gnomos, uma mobília, a casa dos gnomos ou até a transformação de pessoas, bichos, objetos em gnomos. Tá, talvez eu tenha incorporado demais a criança que existe em mim e imaginado além do esperado. Voltemos ao normal.
            Ignomínia poderia ser o ato de ignorar nomes, como muitos fazem com pessoas e objetos, chamando-os eternamente de moço (a) ou coisa. Talvez, uma doença, com o médico falando a senhora que ela está com ignomínia ou ignômica. Pode vir de algum latim como Ignomius Iglatius, que dá origem a alguma bactéria presente na ilha de Nomínia, resultando no nome popular Ignomínia.
            De qualquer forma meus pais, por alguma razão de integridade moral, vergonha ou preguiça me mandavam procurar tudo no dicionário. Fiz então jus ao ensinamento, ou quase treinamento, deles e procurei no dicionário. E qual não é minha surpresa ao descobrir que ignomínia não cabe em nada do que imaginei. Pelo bom e velho Aurélio, significa infâmia, grande desonra. Sinceramente, me decepcionei, prefiro meus gnomos da infância.



Steffania Harumi Okido

sexta-feira, 23 de março de 2012

Me vê uma calceta

Não sou nenhum jornaleiro que escreve uma coluna semanal na página 2 do caderno principal. Vim do interior sabe, lá a vida anda mais devagar e o português um pouco mais longe do considerado normal.

Mas a calceta eu sei o que é, ou ao menos é o que contaram pra mim. Só que a língua tem dessas pegadinhas que você descobre na cidade grande.

Minha vó diria que sim,mas talvez calceta não seja aquela calça de pano que acaba na canela, não é uma calça, nem uma bermuda, é uma calceta.

Receio que não acertei a calceta assim de primeira. Mas eu diria que sou um cara das hipóteses, adoro elas, tão lindas aquelas ilimitadas. Portanto vamos a elas

Uma calceta dava pra ser também aqueles pedaços de plastico que as pessoas usavam pra calçar o sapato sem usar os dedos. Consigo quase imaginar meu vô procurando sua calceta debaixo da cama. Ou então, ainda pensando em calceta como um objeto da casa dos meus avós, ela seja aquele pedaço de madeira que segura a porta da cozinha aberta.

Calceta só pode derivar do calçar. E pensando bem, calçar, assim sem nem olhar no dicionário, me parece o ato de colocar um pé.  Então a calceta é meio que colocar um pé na “eta”. E se você falasse “dei uma calceta naquele cara” todos entenderiam que, em certa velocidade, seu pé se direcionou a ele.

Também tenho que deixar de lado essa ideia de que calceta é algo antigo, quem sabe o popular inglês não influenciou na nossa calceta? “Call” do inglês significa chamada. A calceta pode ser uma ferramenta desse pessoal do marketing que resolve usar esses vocabulários difíceis. Fazer uma calceta seria provavelmente alguma ferramenta de relacionamento com o cliente, daquele tipo chato que te liga em horário inconveniente.

Essa calceta não faz sentido. Uma boa solução então seria entender ela de traz pra frente. Assim como o perneta, que não tem uma perna, o cegueta, que não tem um olho, a punheta, que te fortalece os pulsos. Seguindo esse raciocínio o calceta seria o indivíduo sem calças. Então, sem saber, toda vez que chego em casa no calor viro um calceta. Que coisa estranha saber que as vezes somos coisas que não sabemos.

Voltei ao inicio calçal e acho que esta é a minha deixa. Poderia só terminar essa discussão passando em uma loja popular e pedindo uma calceta, provaria assim meu argumento inicial. Mas o querido google pai dos burros está mais próximo pra me dizer que calceta é (ou era) a grilheta, a argola com que se prendia a perna do condenado. Que chato, agora sou eu quem está condenado a nunca mais comprar uma calceta.

André Andrade

quinta-feira, 22 de março de 2012

Todas as Fressuras da minha vida

É uma palavra poderosa, não concordam? Quando eu escutei ela pela primeira vez da boca de meu professor, o que veio imediatamente na minha cabeça foi um enorme buraco negro, uma fressura gigante. Se não for algo tão profundo, espacial, eu acredito que um muro rachado resolva o problema. Quando eu era criança eu adorava sair andar de bicicleta com meu irmão em uma trilha que ficava na frente de casa, era uma mini florestinha, e ao final dela tinha uma casa de muro bem alto, e eu e meu irmão passavamos horas olhando nas fressuras daquele muro e admirando o jardim e os cachorros da mulher de ali morava.
    Ou talvez fressura tenha a ver com moda, atitude e criatividade. Queria muito ter um brinco, ou um piercing, então vou em uma loja especializada fazer uma fressura pra colocar. Uma pessoa cheia de piercings e brincos seria um fresso, pois tem várias fressuras.
    Ah, o fresso também poderia ser aquele cheio de fressuras, porém diferente. Fressuras do tipo mimimi, cheio de manias, paninhos, regras e outras coisas mais. Imaginei um mundo inteiro novo pra essa palavra, ideias, nomes, ideais e significados que ela possa ter ou ser. Mas mais cedo ou mais tarde temos que encarar a verdade.
   Depois de muito matutar sobre os diversos usos dessa curiosa palavra, decidi abrir o dicionário. VÍSCERAS, coração, figado, entranhas, intestino. Um novo tipo de fressura. Gostei tanto da palavra que de hoje em diante nunca mais terei dores no intestino, apenas dores nas minhas fressuras. Ui!  Minhas fressuras doem.

Luiza Todesco

quarta-feira, 21 de março de 2012

Algures


Algumas palavras, no inacabável léxico da língua portuguesa, aparecem no nosso dia-a-dia e nós nem sabemos de onde veio, o que significa ou por quê foi dita. Tá, talvez não exatamente no dia-a-dia, mas em alguma aula de Direito processual tributário constitucional que as vezes vimos a ter na vida.
                  Uma dessas palavras, é o feio e nada sonoro termo "Algures". E quem usa essa palavra? Se não fosse esse texto, talvez eu mesma nunca tivesse ouvido o som dessas letras juntas em sequência. Talvez nem minha tataravó a usasse. Mas ela tá lá, sentadinha na sala das palavras menores abandonadas, perdida em um ou outro livro chato e monótono.
                  Mas essa palavra, se não fosse seu significado real, poderia ter uma história muito mais feliz.
                  Algures poderia ser usada para designar um tipo de móvel caro presente nas casas mais luxuosas. "Nossa, mas que sala bonita, grande! Mas ficaria ainda melhor se você colocasse um Algures sobre o tapete persa ". Haveria algures dsenhados pelos mais famosos designers.
                  Poderia ter um significado nobre. O prefixo ‘Al’, vindo do árabe, como em Ali babá, Aladim, Algebra ou Almoço, significaria o todo, a totalidade.  Já o sufixo ‘Gures’, do grego, significaria luta, batalha, seria o nome dado a uma antiga e tradicional luta Hebraica. Os bravos lutadores de Gures. Dessa forma, algures significaria “com toda luta, todo esforço”.   "Consegui esse emprego com muito algures".
                  Mas, em vez disso, tem um significado sem graça e é totalmente substituível. Algures significa "em algum lugar". "Deixei minha bolsa algures". É o contrário do pior ainda nenhures.
                  Convenhamos, é preferível estar em algum lugar que estar algures.

Cátia Farias

terça-feira, 20 de março de 2012

Investigação sobre a língua

É impressionante a fertilidade da língua portuguesa e a imiginação que cada novo verbete suscita na mente dos curiosos.

Propus para os estudantes de Redação do curso de Comunicação da UFPR investigar diversos verbetes específicos encontrados no dicionário da língua protuguesa e tentar imaginar suas definições e aplicações mais apropriadas, inspirados nessa maravilhosa divagação de Luis Fernando Veríssimo sobre o verbete defenestrar.

Em breve postarei aqui o resultado desse excelente trabalho de imaginação criativa sobre o uso inadeqado de algumas palavras da língua portuguesa.

"Tortuosos são os caminhos da língua. Espera um pouquinho, ficou meio pornográfico. Deixa eu começar de novo. É curioso o que o tempo e o uso fazem com alguns termos. Kafkiano, por exemplo, já perdeu qualquer contato com a origem e é usado por gente que nem sabe quem foi Kafka — o que não deixa de ser meio kafkiano. 

Relaxado não quer mais dizer relapso como no tempo em que me criticavam por não arrumar meu quarto, ou só porque limpava ranho com a manga. Hoje se refere a quem "está relax", descontraído, tomando seu drinque com guarda-chuvinha como se nada estivesse acontecendo. 

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetalAs pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria. Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Traquinagem devia ser uma peça mecânica. — Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto. Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água. 

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância.Eu não sabia o significado e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas.Galanteadores de calçada no ouvido das mulheres: "Defenestras?" A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..."

Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em: "Aquele é um defenestrado", dando a entender q era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.

Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir."Defenestraçao" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação.

Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.

As janelas do 4º andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes, presos. Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração.

Na lua-de-mel: "Querida... Há uma coisa que eu preciso lhe dizer... Sou um defenestrador". E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama: "Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

"Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia: Fui defenestrado...Alguém comenta: "Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!"

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti."