terça-feira, 20 de março de 2012

Investigação sobre a língua

É impressionante a fertilidade da língua portuguesa e a imiginação que cada novo verbete suscita na mente dos curiosos.

Propus para os estudantes de Redação do curso de Comunicação da UFPR investigar diversos verbetes específicos encontrados no dicionário da língua protuguesa e tentar imaginar suas definições e aplicações mais apropriadas, inspirados nessa maravilhosa divagação de Luis Fernando Veríssimo sobre o verbete defenestrar.

Em breve postarei aqui o resultado desse excelente trabalho de imaginação criativa sobre o uso inadeqado de algumas palavras da língua portuguesa.

"Tortuosos são os caminhos da língua. Espera um pouquinho, ficou meio pornográfico. Deixa eu começar de novo. É curioso o que o tempo e o uso fazem com alguns termos. Kafkiano, por exemplo, já perdeu qualquer contato com a origem e é usado por gente que nem sabe quem foi Kafka — o que não deixa de ser meio kafkiano. 

Relaxado não quer mais dizer relapso como no tempo em que me criticavam por não arrumar meu quarto, ou só porque limpava ranho com a manga. Hoje se refere a quem "está relax", descontraído, tomando seu drinque com guarda-chuvinha como se nada estivesse acontecendo. 

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetalAs pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria. Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Traquinagem devia ser uma peça mecânica. — Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto. Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água. 

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância.Eu não sabia o significado e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas.Galanteadores de calçada no ouvido das mulheres: "Defenestras?" A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..."

Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em: "Aquele é um defenestrado", dando a entender q era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.

Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir."Defenestraçao" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação.

Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.

As janelas do 4º andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes, presos. Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração.

Na lua-de-mel: "Querida... Há uma coisa que eu preciso lhe dizer... Sou um defenestrador". E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama: "Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

"Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia: Fui defenestrado...Alguém comenta: "Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!"

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti."

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