sexta-feira, 23 de março de 2012

Me vê uma calceta

Não sou nenhum jornaleiro que escreve uma coluna semanal na página 2 do caderno principal. Vim do interior sabe, lá a vida anda mais devagar e o português um pouco mais longe do considerado normal.

Mas a calceta eu sei o que é, ou ao menos é o que contaram pra mim. Só que a língua tem dessas pegadinhas que você descobre na cidade grande.

Minha vó diria que sim,mas talvez calceta não seja aquela calça de pano que acaba na canela, não é uma calça, nem uma bermuda, é uma calceta.

Receio que não acertei a calceta assim de primeira. Mas eu diria que sou um cara das hipóteses, adoro elas, tão lindas aquelas ilimitadas. Portanto vamos a elas

Uma calceta dava pra ser também aqueles pedaços de plastico que as pessoas usavam pra calçar o sapato sem usar os dedos. Consigo quase imaginar meu vô procurando sua calceta debaixo da cama. Ou então, ainda pensando em calceta como um objeto da casa dos meus avós, ela seja aquele pedaço de madeira que segura a porta da cozinha aberta.

Calceta só pode derivar do calçar. E pensando bem, calçar, assim sem nem olhar no dicionário, me parece o ato de colocar um pé.  Então a calceta é meio que colocar um pé na “eta”. E se você falasse “dei uma calceta naquele cara” todos entenderiam que, em certa velocidade, seu pé se direcionou a ele.

Também tenho que deixar de lado essa ideia de que calceta é algo antigo, quem sabe o popular inglês não influenciou na nossa calceta? “Call” do inglês significa chamada. A calceta pode ser uma ferramenta desse pessoal do marketing que resolve usar esses vocabulários difíceis. Fazer uma calceta seria provavelmente alguma ferramenta de relacionamento com o cliente, daquele tipo chato que te liga em horário inconveniente.

Essa calceta não faz sentido. Uma boa solução então seria entender ela de traz pra frente. Assim como o perneta, que não tem uma perna, o cegueta, que não tem um olho, a punheta, que te fortalece os pulsos. Seguindo esse raciocínio o calceta seria o indivíduo sem calças. Então, sem saber, toda vez que chego em casa no calor viro um calceta. Que coisa estranha saber que as vezes somos coisas que não sabemos.

Voltei ao inicio calçal e acho que esta é a minha deixa. Poderia só terminar essa discussão passando em uma loja popular e pedindo uma calceta, provaria assim meu argumento inicial. Mas o querido google pai dos burros está mais próximo pra me dizer que calceta é (ou era) a grilheta, a argola com que se prendia a perna do condenado. Que chato, agora sou eu quem está condenado a nunca mais comprar uma calceta.

André Andrade

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